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sábado, 28 de abril de 2012

Pensando no gênero textual  crônica, convidei meus alunos para vermos o filme “A Vida é Bela”. Propus a eles que se colocassem na posição do personagem Josué e narrassem o olhar da criança perante os fatos vividos. Saíram essas maravilhas de texto:


LUIS HENRIQUE
Se eu fosse contar a história da minha vida, diria o que meu pai, meu grande herói, fez para me deixar viver.
Vivíamos em um pequeno vilarejo na Itália. Éramos uma família pequena, porém unida e feliz. Meu pai tinha acabado de realizar seu sonho: ter uma livraria. Iniciou-se, no mesmo período uma guerra.
Lembro-me como se fosse hoje. Fomos levados a uma estação de trem tomada pela Alemanha. Entramos em vagões sem bancos, apertados e gelados para seguir até a base alemã. Minha mãe, por ser professora e falar outras línguas, poderia ficar, todavia decidiu ir para não permanecer separada de nós.
Ao chegarmos ao local, meu pai disse que tudo fazia parte de um jogo e aquilo era um passeio, visto que era meu aniversário. Acreditei. Fomos destinados a dormitórios lotados e desconfortáveis. Meu pai tinha que trabalhar forçado por várias horas. Entretanto nunca o vi ai reclamar. Estava sempre de bom humor, querendo me proteger. Vários dias se passaram e várias crianças foram mortas. Meu pai me escondeu para que os alemães não me encontrassem.
O tempo passou e havia rumores de que a guerra havia acabado. Os soldados alemães estavam deixando a base de concentração. Continuavam matando pessoas. Meu pai tentou, então, arriscar-se. Escondeu-me em uma espécie de porta-cartas. Eu fiquei naquele local apertado. Disse-me para não sair dali. Segui suas instruções. Ele pegou minha coberta, vestiu-se de mulher para entrar nos dormitórios femininos a fim de encontrar minha mãe. Não a viu.
Correndo pelas ruas, mas foi pego por um soldado alemão. Passou em frente ao meu esconderijo e foi levado para um canto. Parecia que já sabia o que iria acontecer. Foi a última vez que vi meu pai sorrindo para mim. Ele me fez feliz pela última vez.
Fiquei naquele pequeno local até todos irem embora. Amanheceu. Então saí e me vi sozinho em meio a um território de guerra. Não sabia o que fazer. Avistei soldados americanos que chegavam com um tanque de guerra. Eles se aproximaram de mim e me convidaram para subir. Sem saber de nada, pensando que aquilo era um jogo, fui passear com eles. Encontrei minha mãe. Fiquei feliz. Assim é que me lembro de meu pai...

AMANDA VELOSO
Lá estava eu, dentro daquele caixote de ferro com apenas os olhos para fora, esperando meu pai voltar. Ou se isso não acontecesse, esperando, então, que mais ninguém estivesse ali para eu poder sair e receber meu prêmio.
Estava nervoso, ansioso para ver como seria dali em diante. Estava com saudades de minha mãe. Eis que, então, aquele suposto “campo de provas” tornou-se um silencio. Abri aquela porta com muito vigor e, no meio daquele grande espaço, olhei para todos os lados e me vi sozinho, sem ninguém. Ouvi aquele ronco chegando. Era ele, o meu prêmio: o meu tanque.
Era verdade, depois de adquirir os mil pontos, o prêmio viria. Ele tinha razão. “Eu te amo, pai.”
Um comandante me guiou e no caminho a avistei: minha mãe. Logo caí em seus braços em um abraço apertado, cheio de amor. Um momento que eu vou para sempre guardar: adquiri os mil pontos e acima disso vi o quanto meu pais têm valor.

GIULIA BRANDALISE
Eu, naquela época, jovem e inocente, não sabia de nada disso. Meu pai, minha mãe, meu tio e eu embarcamos em uma viagem que para meu pai não teve volta. Para muitos também não teve. Era meu aniversário e, segundo meu pai, não passava de uma viagem bem sucedida de um jogo no qual deveríamos marcar mil pontos.
Não sei quanto tempo o jogo durou, mas o lugar não me contentou. Era sujo, misterioso e, ao mesmo tempo, muito assustador. As pessoas gritavam e se olhavam com muita raiva e desprezo. Comíamos pouco e quando recebíamos algo, não passava de pão duro e velho.
Mas lá todos tinham de marcar mil pontos. Todos eram rivais. Brinquei de me esconder de tudo e de todos. Brinquei do jogo do silêncio. Valeu a pena meu tanque de guerra. Com minha mãe voltei para casa. Sinto falta do meu pai. Jogos como este nunca mais.

VITÓRIA MACIEL
Era pequeno quando tudo aconteceu. Dia do meu aniversário. Meu pai me disse que a gente iria para um parque a fim de juntarmos mil pontos e ganhar um tanque blindado.
Quando chegamos ao local, uma das regras era que eu não podia ver minha mãe. O No local brincava todos os dias com outras crianças. Um dia todas sumiram. Meu pai disse que elas haviam perdido o jogo. Eu tinha que ficar escondido para não ser visto por ninguém. Caso me vissem, nós perderíamos o jogo. Uma tarde fui ver o que meu pai fazia e descobri que trabalhava duro. Ele me pediu para ficar escondido. Nós criamos um código: ele me chamava três vezes e eu aparecia.
Depois de uns meses meu pai conseguiu juntar mil pontos. Como havia uma guerra, eu fui aconselhado por meu pai a entrar numa caixa e ele foi atrás da mamãe, mas estupidamente um alemão o matou. Amanheceu e eu fui encontrado por um soldado americano que estava em um tanque blindado. Encontrei minha mãe. A felicidade era grande. Mas havia tristeza também em mim. Perdi meu pai muito cedo. Ele vive dentro de mim.

LUANA DE BORBA
Aqueles dias foram bem confusos. Ainda me lembro. Tentar salvar meu filho não fora nada fácil. Antes um homem que só vivia viajando e sorrindo e, agora, em meio a uma guerra sem saída. Um objetivo havia: a vida do meu filho e da minha princesa. Era a fuga daquele lugar inquietante. Mas em meio a tudo aquilo, meu filho me trazia alegrias com o entusiasmo de ganhar o tanque de guerra. Daquelas quatro paredes, meu pequeno me via carregar coisas pesadas. Minha mulher não estava mais comigo, meu Josué ficava cada dia mais apático.
Minhas forças iam se extinguindo, mas não desisti. Até que um dia meu filho quis ir embora. O que faria agora? Tentei convencê-lo a ficar. Afinal, era um grande prêmio estávamos na frente, vencendo. Faltava pouco. Mas me pegaram e não sobrevivi.
Agora quem fala é o Josué. Tenho orgulho de meu pai. Sinto sua falta. Mas sei que ele foi um grande guerreiro.

MARIA LUIZA
Quando eu era pequeno, sete anos, mais ou menos, tinha tudo o queria: carinho, amor, uma casa. “Josué!”, gritava minha mãe, “levanta!”.
Um dia isso tudo mudou. Fui acordado por barulhos estranhos. Desci correndo, vi pessoas desconhecidas levando meus pais. Fui junto. “Aonde vamos?”, questionei. “Tudo faz parte de um jogo”, dizia papai, que logo em seguida falava baixinho “um horrível jogo”.
Demorou, mas chegamos a um local horrível, cheio de pessoas assustadas. Imediatamente nos levaram a uma espécie de cabana que, segundo meu pai, era o local que deveríamos permanecer para participar do jogo. Deram-nos uniformes, roupas listradas.
Eu ficava o dia inteiro nessa cabana. Meu pai só voltava à noite, machucado, cansado. Ele dizia que eram jogos e que estava ganhando pontos a fim de sairmos dali vencedores. Prêmio: um tanque de verdade. Quando eu pedia o porquê de ele voltar daquele jeito, a única coisa dita era “São lutas de brincadeira, por isso você deve esperar aqui”.
Chegou um dia em que pessoas começaram a correr, havia confusão, tiros. Meu pai, assustado, disse para me esconder em uma caixa e só saísse quando não houvesse mais barulho, mais ninguém por perto. Obedeci. Passou-se um tempo e decidi espiar. Vi meu pai deitado num canto, imóvel. Logo o lugar ficou vazio. Saí dali e corri em direção ao meu pai. Estava morto. Encontrei minha mãe. Meu herói havia lutado pela minha vida.


 VISÃO DO TIO - CRÔNICA
Eu havia tido uma boa juventude. Meu pai me dera a oportunidade de estudar, coisa que eu valorizava muito. E depois que ele morrera, eu havia herdado seu restaurante. Mas os anos se passaram. Eu estava velho e meu sangue judeu não ajudava nos negócios. Frequentemente minha casa era destruída por jovens nazistas. Uma vez até pintaram em meu cavalo a frase “Cavalo Judeu”.
Meu sobrinho veio morar comigo e, em troca de casa e comida, ele trabalhava de garçom para mim no restaurante. Os anos foram passando muito rápido, e meu sobrinho havia casado com uma professora. Agora tinha um filho e havia também comprado uma livraria, diariamente taxada como “loja judia”.
Exatamente no aniversário de Josué, filho do meu sobrinho, fui levado pelos guardas a uma estação de trem. Depois fiquei sabendo que Josué e meu sobrinho também estavam lá. Todos dentro do trem eram judeus. Não pude esconder minha tristeza quando meu sobrinho disse:
- Acalme-se, Josué, é apenas um jogo, seu presente de aniversário.
Chegamos a um lugar frio, e os soldados nos fizeram descer e formar uma fila, mulheres para um lado, homens para o outro. Ao chegarmos ao final da fila, nos conduziram a um pavilhão feio, de madeira, com vários beliches apertados. Logo um soldado veio nos dizer as regras.
No outro dia, os homens foram trabalhar, mas me disseram: “os velhos ficam aqui com as crianças”. Trouxeram-nos água um pedaço de pão velho e nos mandaram ir para o banho.  Josué não quis ir e se escondeu. Mas outros, como eu, formaram uma fila e um soldado nos conduziu a um prédio.
Uma das soldadas tropeçou e caiu e eu a ajudei a se levantar. Ela desvencilhou-se de minhas mãos e olhou para mim com cara de nojo. Então pensei: “Não somos todos filhos de Deus? Não somos todos humanos? Não entendo o porquê de tudo isso...”
Então nos mandaram tirar as roupas e entrar em uma sala para tomarmos banho. Entrei e logo percebi que aquilo não era um banho. Soltaram um tipo de gás e todos ao meu redor começaram a morrer...a minha visão foi ficando embaçada. Eu não conseguia respirar direito. Caí no chão e tudo foi ficando escuro, escuro, escuro, escuro...
VITÓRIA


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